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0,57%. O número que mede a distância entre a política de inovação e a empresa goiana

FAJE Goiás
Presidente Executivo
07 de outubro de 2026
#Pacto Goiás pela Inovação#fomento#política pública#FICCA 2026#FAPEG#FINEP#Lei do Bem#ProGoiás
Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação reunido para a foto de grupo ao fim da 23ª reunião, na Casa da Indústria, em Goiânia

Em dez anos, 49 das 8.659 empresas dos setores estratégicos de Goiás acessaram fomento direto à inovação. O dado foi à mesa do Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação, e a FAJE assumiu a co-liderança da Comunicação.

Na 23ª reunião do Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação, um dado mudou o tom da conversa: de cada mil empresas dos setores estratégicos goianos, menos de seis acessaram fomento direto à inovação na última década. Não é falta de dinheiro público. É distância entre quem oferece e quem precisa.

O número vem do estudo "Desafios da inovação em setores estratégicos em Goiás: barreiras e facilitadores no acesso aos instrumentos públicos de fomento", de Lidiane Monteiro de Abreu, sob orientação da Profa. Dra. Claudia Regina Rosal Carvalho, no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FACE/UFG. A pesquisa cruzou dez anos de dados documentais com a percepção de três grupos que raramente são ouvidos na mesma mesa: as instituições que concedem, as entidades que intermedeiam e as empresas que demandam.

Dez anos, 8.659 empresas, 49 apoiadas

O levantamento mapeou 8.659 empresas em quatro setores estratégicos do estado: Tecnologia da Informação, Alimentos, Farmoquímico e Extração de Minerais Não Metálicos. Entre 2014 e 2024, apenas 49 delas foram apoiadas por fomento direto da FINEP ou da FAPEG. São 0,57%.

A distribuição mostra onde o funil aperta:

  • Tecnologia da Informação: 37 empresas apoiadas (1,01% do setor)
  • Alimentos: 10 apoiadas (0,21%)
  • Farmoquímico: 1 apoiada (1,35%)
  • Extração Mineral: 1 apoiada (0,74%)

Um detalhe institucional merece registro: a fundação estadual teve mais capilaridade que a agência federal. A FAPEG apoiou 32 empresas; a FINEP, 17. O instrumento mais perto do território alcançou mais gente.

O incentivo fiscal também não corrige a rota

Se o fomento direto é um gargalo, o incentivo fiscal deveria ser a porta larga. Não é. Das mesmas 8.659 empresas, 277 (3,20%) utilizaram a Lei do Bem ou o ProGoiás.

E a composição desses 3,20% diz muito sobre a economia que o estado premia:

  • O setor de Alimentos concentra o ProGoiás, com 229 empresas beneficiadas (4,79%), coerente com a vocação histórica goiana.
  • O Farmoquímico lidera em proporção: 13 empresas (17,57% do setor).
  • A TI registra o paradoxo: apenas 17 empresas (0,46%). O setor de maior intensidade tecnológica é o que menos aproveita o incentivo à tecnologia.

A razão é estrutural, e o estudo é direto ao apontá-la: a Lei do Bem exige apuração pelo Lucro Real. Quem está no Simples Nacional, ou seja, a maior parte das micro e pequenas empresas inovadoras, está automaticamente fora.

Três gargalos que todos enxergam e ninguém resolve sozinho

Ao cruzar as respostas de fomentadores, entidades de classe e empresas, a pesquisa encontrou convergência em três pontos. Não é divergência de diagnóstico: é falha de coordenação.

1. Garantias e burocracia: o filtro excludente. A exigência de garantias reais bloqueia empresas cujo ativo é intangível. Uma software house não tem galpão para dar em garantia; tem código, time e carteira. No setor de TI, essa foi a barreira mais citada, por 8 das 15 empresas ouvidas. Some-se a morosidade, letal para o tempo de um negócio digital.

2. O abismo informacional: a falha de tradução. Editais complexos, em linguagem hermética e com critérios que mudam, não chegam ao pequeno e médio empresário. Cria-se uma dependência insustentável de intermediários para traduzir política pública. E aqui está o ponto que mais nos interessa: as próprias entidades representativas declararam limitação em mapear e compreender todas as linhas de fomento existentes. Quem deveria ser a ponte admite que a ponte está sobrecarregada.

3. Instrumentos anacrônicos. Políticas desenhadas para a indústria física funcionam bem para ela, mas são cegas para startups, ativos intangíveis e serviços modernos.

O retrato por setor

O contraste entre os setores é o melhor argumento contra solução única:

  • TI: 62,5% nunca acessaram qualquer instrumento. Inovam com capital próprio, por sobrevivência.
  • Farmoquímico: 72,7% já acessaram. PD&I é mandatório por regulação, e o setor desenvolveu maturidade para disputar subvenção.
  • Alimentos: 63,6% já acessaram, mas 9 de 11 relatam burocracia paralisante.
  • Minerais não metálicos: 57,1% já acessaram, travados sobretudo pelo peso das garantias.

Vale olhar para a amostra: das 44 empresas ouvidas, 64,4% são micro e pequenas. São exatamente as que têm menos estrutura interna para enfrentar complexidade burocrática, e são a maior parte de quem a FAJE representa.

Onde entra a FAJE Goiás

Pedro Lucas Andrade Bueno, presidente da FAJE Goiás, fala ao microfone na 23ª reunião do Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação, na Casa da Indústria, com a placa FAJE GO à sua frente na mesa.
Pedro Lucas Andrade Bueno, presidente da FAJE Goiás, fala ao microfone na 23ª reunião do Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação, na Casa da Indústria, com a placa FAJE GO à sua frente na mesa.

A FAJE é signatária do Pacto Goiás pela Inovação, o movimento de governança conjunta que reúne entidades públicas e privadas, ICTs, universidades, associações e empresas em torno do ecossistema de inovação do estado. O Conselho Gestor se reúne mensalmente, e nesta rodada, a 23ª, realizada na Casa da Indústria, sede da FIEG, em Goiânia, cada signatário apresentou sua leitura do que foi exposto e onde pode contribuir. A federação foi representada por seu presidente executivo, Pedro Lucas Andrade Bueno, que levou à mesa a posição da FAJE sobre o diagnóstico apresentado.

A leitura da FAJE é esta: o problema central apontado pelo estudo, o abismo informacional, é um problema de comunicação, não de orçamento. Editais que ninguém entende são, na prática, editais que não existem para a maior parte do mercado.

Por isso a federação assumiu a co-liderança da Comunicação dentro da estrutura de grupos de trabalho do Pacto. É onde a FAJE tem algo concreto a oferecer: capacidade de produzir conteúdo, traduzir linguagem técnica e fazer a informação circular na base do ecossistema, justamente entre as micro e pequenas empresas que o estudo mostra estarem de fora.

FICCA 2026

Outro ponto da pauta foi o FICCA 2026, a Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio de Goiás, que acontece de 27 a 29 de outubro, no Centro de Convenções de Goiânia, reunindo em um só espaço seis feiras setoriais, com entrada gratuita.

O Pacto Goiás pela Inovação terá estande próprio no evento, e a FAJE Goiás se colocou à disposição para somar na realização, em formato a ser definido com a coordenação do Pacto.

O que vem agora

O estudo encerra com uma conclusão que vale como pauta de trabalho: o desenvolvimento regional goiano precisa de mais do que volume financeiro. Precisa de reengenharia institucional. Entre as ações propostas pela pesquisa estão a simplificação dos editais regionais voltados a micro e pequenas empresas, a criação de um balcão único para desmistificar linhas de fomento e um crédito outorgado estadual para inovação aberta, desvinculado da exigência federal de Lucro Real.

São agendas que nenhuma entidade executa sozinha. É exatamente por isso que o Pacto existe, e por que a FAJE Goiás está nele.

Se a sua empresa é jovem, é goiana e nunca conseguiu acessar uma linha de fomento à inovação, você não é exceção. Você é 99,43%. E é por isso que estamos nessa mesa.
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