0,57%. O número que mede a distância entre a política de inovação e a empresa goiana

Em dez anos, 49 das 8.659 empresas dos setores estratégicos de Goiás acessaram fomento direto à inovação. O dado foi à mesa do Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação, e a FAJE assumiu a co-liderança da Comunicação.
Na 23ª reunião do Conselho Gestor do Pacto Goiás pela Inovação, um dado mudou o tom da conversa: de cada mil empresas dos setores estratégicos goianos, menos de seis acessaram fomento direto à inovação na última década. Não é falta de dinheiro público. É distância entre quem oferece e quem precisa.
O número vem do estudo "Desafios da inovação em setores estratégicos em Goiás: barreiras e facilitadores no acesso aos instrumentos públicos de fomento", de Lidiane Monteiro de Abreu, sob orientação da Profa. Dra. Claudia Regina Rosal Carvalho, no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da FACE/UFG. A pesquisa cruzou dez anos de dados documentais com a percepção de três grupos que raramente são ouvidos na mesma mesa: as instituições que concedem, as entidades que intermedeiam e as empresas que demandam.
Dez anos, 8.659 empresas, 49 apoiadas
O levantamento mapeou 8.659 empresas em quatro setores estratégicos do estado: Tecnologia da Informação, Alimentos, Farmoquímico e Extração de Minerais Não Metálicos. Entre 2014 e 2024, apenas 49 delas foram apoiadas por fomento direto da FINEP ou da FAPEG. São 0,57%.
A distribuição mostra onde o funil aperta:
- Tecnologia da Informação: 37 empresas apoiadas (1,01% do setor)
- Alimentos: 10 apoiadas (0,21%)
- Farmoquímico: 1 apoiada (1,35%)
- Extração Mineral: 1 apoiada (0,74%)
Um detalhe institucional merece registro: a fundação estadual teve mais capilaridade que a agência federal. A FAPEG apoiou 32 empresas; a FINEP, 17. O instrumento mais perto do território alcançou mais gente.
O incentivo fiscal também não corrige a rota
Se o fomento direto é um gargalo, o incentivo fiscal deveria ser a porta larga. Não é. Das mesmas 8.659 empresas, 277 (3,20%) utilizaram a Lei do Bem ou o ProGoiás.
E a composição desses 3,20% diz muito sobre a economia que o estado premia:
- O setor de Alimentos concentra o ProGoiás, com 229 empresas beneficiadas (4,79%), coerente com a vocação histórica goiana.
- O Farmoquímico lidera em proporção: 13 empresas (17,57% do setor).
- A TI registra o paradoxo: apenas 17 empresas (0,46%). O setor de maior intensidade tecnológica é o que menos aproveita o incentivo à tecnologia.
A razão é estrutural, e o estudo é direto ao apontá-la: a Lei do Bem exige apuração pelo Lucro Real. Quem está no Simples Nacional, ou seja, a maior parte das micro e pequenas empresas inovadoras, está automaticamente fora.
Três gargalos que todos enxergam e ninguém resolve sozinho
Ao cruzar as respostas de fomentadores, entidades de classe e empresas, a pesquisa encontrou convergência em três pontos. Não é divergência de diagnóstico: é falha de coordenação.
1. Garantias e burocracia: o filtro excludente. A exigência de garantias reais bloqueia empresas cujo ativo é intangível. Uma software house não tem galpão para dar em garantia; tem código, time e carteira. No setor de TI, essa foi a barreira mais citada, por 8 das 15 empresas ouvidas. Some-se a morosidade, letal para o tempo de um negócio digital.
2. O abismo informacional: a falha de tradução. Editais complexos, em linguagem hermética e com critérios que mudam, não chegam ao pequeno e médio empresário. Cria-se uma dependência insustentável de intermediários para traduzir política pública. E aqui está o ponto que mais nos interessa: as próprias entidades representativas declararam limitação em mapear e compreender todas as linhas de fomento existentes. Quem deveria ser a ponte admite que a ponte está sobrecarregada.
3. Instrumentos anacrônicos. Políticas desenhadas para a indústria física funcionam bem para ela, mas são cegas para startups, ativos intangíveis e serviços modernos.
O retrato por setor
O contraste entre os setores é o melhor argumento contra solução única:
- TI: 62,5% nunca acessaram qualquer instrumento. Inovam com capital próprio, por sobrevivência.
- Farmoquímico: 72,7% já acessaram. PD&I é mandatório por regulação, e o setor desenvolveu maturidade para disputar subvenção.
- Alimentos: 63,6% já acessaram, mas 9 de 11 relatam burocracia paralisante.
- Minerais não metálicos: 57,1% já acessaram, travados sobretudo pelo peso das garantias.
Vale olhar para a amostra: das 44 empresas ouvidas, 64,4% são micro e pequenas. São exatamente as que têm menos estrutura interna para enfrentar complexidade burocrática, e são a maior parte de quem a FAJE representa.
Onde entra a FAJE Goiás

A FAJE é signatária do Pacto Goiás pela Inovação, o movimento de governança conjunta que reúne entidades públicas e privadas, ICTs, universidades, associações e empresas em torno do ecossistema de inovação do estado. O Conselho Gestor se reúne mensalmente, e nesta rodada, a 23ª, realizada na Casa da Indústria, sede da FIEG, em Goiânia, cada signatário apresentou sua leitura do que foi exposto e onde pode contribuir. A federação foi representada por seu presidente executivo, Pedro Lucas Andrade Bueno, que levou à mesa a posição da FAJE sobre o diagnóstico apresentado.
A leitura da FAJE é esta: o problema central apontado pelo estudo, o abismo informacional, é um problema de comunicação, não de orçamento. Editais que ninguém entende são, na prática, editais que não existem para a maior parte do mercado.
Por isso a federação assumiu a co-liderança da Comunicação dentro da estrutura de grupos de trabalho do Pacto. É onde a FAJE tem algo concreto a oferecer: capacidade de produzir conteúdo, traduzir linguagem técnica e fazer a informação circular na base do ecossistema, justamente entre as micro e pequenas empresas que o estudo mostra estarem de fora.
FICCA 2026
Outro ponto da pauta foi o FICCA 2026, a Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio de Goiás, que acontece de 27 a 29 de outubro, no Centro de Convenções de Goiânia, reunindo em um só espaço seis feiras setoriais, com entrada gratuita.
O Pacto Goiás pela Inovação terá estande próprio no evento, e a FAJE Goiás se colocou à disposição para somar na realização, em formato a ser definido com a coordenação do Pacto.
O que vem agora
O estudo encerra com uma conclusão que vale como pauta de trabalho: o desenvolvimento regional goiano precisa de mais do que volume financeiro. Precisa de reengenharia institucional. Entre as ações propostas pela pesquisa estão a simplificação dos editais regionais voltados a micro e pequenas empresas, a criação de um balcão único para desmistificar linhas de fomento e um crédito outorgado estadual para inovação aberta, desvinculado da exigência federal de Lucro Real.
São agendas que nenhuma entidade executa sozinha. É exatamente por isso que o Pacto existe, e por que a FAJE Goiás está nele.
Se a sua empresa é jovem, é goiana e nunca conseguiu acessar uma linha de fomento à inovação, você não é exceção. Você é 99,43%. E é por isso que estamos nessa mesa.
Fontes e referências
- Pacto Goiás pela Inovação: estrutura de governança e signatários — consultado em 07/10/2026
- FICCA 2026, Feira da Indústria, Comércio, Cooperativismo, Empreendedorismo e Agronegócio de Goiás — consultado em 07/10/2026
